
Jornal
do Commercio
26/05/2005
Foco das empresas
é no novo perfil de consumidor, que valoriza o uso dos multicanais.
Interação
conquista o público
GABRIELA
GODOI

Foi-se o tempo que
o plano de marketing para lançar um produto se resumia a algumas
publicações em revistas, spots em rádios e filmes
na televisão. Tendência mundial, a propaganda interativa,
que convida o consumidor a levantar da cadeira e fazer algo, já
está em uso no País. Segundo especialistas, este tipo
de publicidade atende a um novo perfil de consumidor, conhecido como
multicanal.
- O consumidor quer
vários canais de comunicação, sejam eles virtuais
ou reais. O desafio para agências de publicidade e empresas é
criar peças que chamem atenção de forma criativa
- avalia a professora de marketing Letícia Casotti, do Coppead,
da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Um exemplo da tendência
é o filme do Mini - modelo compacto da BMW - veiculado na TV
americana. O comercial parece um alerta sobre carros falsificados, comparando
o Mini com outros produtos copiados ilegalmente - como relógios
Rolex e óculos Ray-Ban. Chega a introduzir uma "vítima"
dos falsificadores de carros, que aparece com o rosto oculto. O filme
convida o consumidor a comprar um DVD, por US$ 19,99, que explica tudo
sobre a falsificação do modelo e direciona o espectador
a um site para o qual ele poderá enviar fotos de Minis que ele
mesmo tenha criado. A BMW já vendeu mais de 200 DVDs.
- O foco da campanha
é o público que compra carros de grande porte. A empresa
está segmentando por estilo de vida. Além dos filmes,
uma das peças promocionais da campanha foi desfilar pelas cidades
com o carro, em cima de uma caminhonete típica americana, mostrando
o quanto o carro é pequeno. É uma estratégia arriscada
- avalia o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV),
Eduardo Ayrosa.
VAREJISTA CONVIDA
CLIENTE A USAR SERVIÇO DE DESPERTADOR
Outro exemplo da
tendência, a varejista americana Target usou em novembro passado
comercial de TV para convidar os consumidores a programarem um serviço
despertador. O objetivo seria que os clientes não perdessem o
início da liqüidação pós-Dia de Ação
de Graças. Celebridades como a modelo Heidi Klum e personagens
como Darth Vader eram as vozes que acordavam quem tinha agendado o serviço.
Criação da inglesa Mother.
No Brasil, as empresas
descobriram o filão e começam a investir na interatividade.
A fabricante de embalagens longa vida Tetra Pak incluiu táticas
de guerrilha entre suas ações de marketing para o lançamento
do Tetra Prisma, sua nova embalagem.
- A comunicação
deveria ser uma experiência com a embalagem, que não é
nova, mas precisava ser posicionada. Como é um produto com uma
cara moderna, queríamos atingir um público jovem, proporcionando
uma experiência com o produto - explica Eduardo Eisler, diretor
de desenvolvimento de negócios da Tetra Pak.
A saída encontrada
foi a criação de um time de streetball, modalidade de
basquete de rua muito praticada nos Estados Unidos, mas desconhecida
no Brasil. Em quadras públicas de São Paulo, os jogadores
do Tetra Prisma fazem exibições, com suas roupas de hip
hop e selecionam novos jogadores no público.
- A idéia
foi inserir o produto no mundo do público, não trazer
o público para o mundo do produto, como a mídia tradicional
faz. Os jogadores encarnam o tipo bacana, distribuindo para o público
sucos e água de coco, todos na embalagem nova - conta o diretor.
Desenvolvedora da
campanha, a Espalhe, do publicitário Gustavo Fortes, procura
atender a vários clientes, sempre baseado no "marketing
de guerrilha". "Criamos ações diferenciadas,
com o objetivo de fazer barulho, gerar comentários que resultem
em boca-a-boca e mídia espontânea. Procuramos furar o bloqueio
de comunicação que se instalou na mídia, pois as
pessoas recebem tanta informação em e-mails, jornais e
revistas, que estão saturadas, não prestam atenção
às propagandas", comenta Fortes.
O publicitário
lembra que a tática guerrilheira já é bastante
difundida entre organizações não governamentais,
como o Greenpeace, Peta e Anistia Internacional. "Claro que as
empresas contam com outros planos de marketing. Este tipo de ferramenta
sai do plano tradicional, do ambiente frio. Realizamos ações
fortes para colocar assunto em pauta", resume.
Fox investe em
diferentes mídias
Detentora de dois
canais de TV por assinatura, a Fox buscou nos anúncios interativos
uma forma de se comunicar com seu público. Internet e outdoors
são algumas das mídias utilizadas pela empresa, que tinha
como objetivo divulgar a série 24 Horas que, em 24 episódios,
mostra um dia na vida do agente da CIA (serviço secreto americano),
Jack Bauer.
O lançamento
da quarta temporada começou pela Internet, nas comunidades de
fãs da série no Orkut (rede de relacionamento virtual).
"Para envolver os fãs, criamos uma gincana onde os participantes
deveriam encontrar 24 pistas, espalhadas por São Paulo. Quem
encontrasse todas em menor tempo ganhava. Foi uma espécie de
dia de Jack Bauer", explica Gustavo Fortes, da Espalhe.
A ação
também visava ao público que não assiste à
série, criando comentários em torno da empresa Fox. "A
primeira dica apareceu com um banner de 150 metros quadrados, com homens
vestidos como na unidade de Bauer fazendo rapel em um prédio.
Para quem não conhece a série, desperta a curiosidade",
avalia.
O gerente geral
dos canais Fox, Gustavo Leme, explica que o desejo por um posicionamento
diferenciado levou a empresa a buscar uma estratégia mais direta.
"A mídia tradicional não pode ser deixada de lado,
mas, nestes casos, a idéia era realizar ações que
fossem comentadas pelas pessoas, gerando boca a boca sobre o canal e
as séries", afirma.
Além da série
24 Horas, a Fox utilizou o marketing interativo para lançar no
último Verão o canal masculino FX nas praias do litoral
paulista. Além das tendas com monitoras jovens e bonitas orientando
as brincadeiras, na areia outras jovens desfilavam com um DVD portátil
com a programação e um celular.
- As pessoas que
conheciam o canal olhando o DVD e no celular podiam ligar imediatamente
para a operadora e contratar o serviço. Acredito que este tipo
de marketing ainda está sendo descoberto, mas acredito que vale
a pena focar no público específico - explica Leme.
O professor da FGV
Eduardo Ayrosa vê a modalidade com restrições. Ele
acredita que informações demais podem confundir o consumidor
para o qual se quer comunicar o produto. "É difícil
passar mensagem de algo que já foi dito e feito. O público
passa pelo assunto sem prestar atenção. O objetivo da
propaganda é ser percebida, mas, pelo excesso de informações,
as pessoas passam por elas sem perceber", reforça o professor.
Ayrosa vê
o marketing interativo como uma "faca de dois gumes", pois
ao mesmo tempo que é audaciosa e cria conceitos, pode gerar um
efeito negativo se o consumidor se sentir enganado. "Estas campanhas
são de impacto, mas não substituem a boa e velha promoção
no ponto de venda e veículos de comunicação de
massa. Quando o consumidor compra a idéia de participar, a campanha
é mais eficaz", pensa o professor.
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