
Barulho
diferente
Felipe
Turlão (Qui, 07 de Abril de 2005 11:32)

Um guerrilheiro
gosta de atacar sem ser notado e com o mínimo de gasto possível.
A filosofia cada vez mais tem sido transposta para o campo do marketing
por diversas empresas clientes e agências ao redor do mundo, especialmente
nos mercados mais competitivos e saturados.
A discussão
sobre os limites éticos e a própria eficiência dos
diversos métodos que podem ser agrupados sobre a denominação
"marketing de guerrilha" ou "marketing viral"
já têm algum tempo e, com certeza, se intensificarão
no futuro próximo, pois o recurso tem sido empregado com maior
intensidade e freqüência para diversos tipos de produtos/serviços
e propósitos.
No Brasil, a Espalhe
Marketing de Guerrilha vem, desde janeiro de 2003, invadindo as ruas
e as páginas da web com ações, no mínimo,
não usuais para os seus clientes. A idéia é fazer
diferente. "O mercado está muito barulhento, com gente demais
querendo aparecer. Nós buscávamos uma forma de sobressair
as marcas dos nossos clientes. Percebemos que, em vez de gritar mais
alto, poderíamos fazer um barulho diferente", explica o
publicitário Gustavo Fortes, um dos sócios da empresa,
ao lado do também publicitário Cléber Martins,
do administrador Marcelo Vial e da jornalista Roberta Paixão.
Esse "barulho
diferente" foi ouvido, por exemplo, na divulgação
da nova temporada da série 24 Horas, da Fox. A Espalhe organizou,
no último dia 3 de março, uma megagincana, que durou 24
horas e contou com a participação de fãs do seriado.
A cada 60 minutos, eram divulgados códigos secretos em vários
cantos de São Paulo. Os participantes precisaram acessar o site
www.24halerta.com.br para descobrir onde encontrariam as pistas. A primeira
delas, por exemplo, foi revelada ao meio-dia, na esquina das Avenidas
Juscelino Kubitschek e Faria Lima, por dois rapazes que praticavam rapel.
Eles desceram de um prédio e, ao chegarem no parapeito, mostraram
um cartaz com o número secreto para os participantes ali presentes
e muitos transeuntes, que nada entenderam. Os cinco competidores
que descobriram mais códigos com maior rapidez ganharam um míni
iPod cada.
A Fox reservou 30%
de sua verba de marketing anual para guerrilhas como esta. Segundo o
gerente-geral do canal, Gustavo Leme, a intenção é
"entrar na vida das pessoas e estimular a cultura do boca-a-boca
sobre as atrações da Fox". A ação chegou
ao conhecimento dos fãs através do Orkut e de fóruns
pela internet.
Além deste,
a Fox divulgou outros dois de seus produtos por meio da guerrilha: o
canal FX e a série de Amyr Klink no National Geographic. No último
caso, a Espalhe colocou envelopes com o nome do velejador e um número
de telefone em vários lugares de São Paulo. Dentro, havia
fotos das viagens. Julgando estar com um material importante, ou apenas
por curiosidade, muitas pessoas ligaram para o telefone e ouviram uma
mensagem de Amyr divulgando o novo programa.
Na verdade, o "marketing
de guerrilha" e sua tática, que visa à divulgação
boca a boca, existem desde que o mundo é mundo. Porém,
apenas nos últimos anos as empresas começaram a olhar
com mais atenção para o assunto, a fim de investir com
estratégia neste ramo. A chegada da internet foi fundamental
para dar o impulso necessário, já que os anunciantes passaram
a contar com um meio de divulgação propício para
multiplicar rapidamente o boca-a-boca.
Na web, além
do Orkut e dos fóruns, a Espalhe arranja espaço para divulgar
seus clientes em salas de bate-papo, blogs e até no comunicador
MSN. Entre as táticas adotadas, está a de lançar
"rumores" sobre um acontecimento ou um produto. Foi o que
aconteceu no caso da gincana do 24 Horas. Os agentes da Espalhe entraram
em comunidades no Orkut relacionadas ao seriado e começaram a
postar mensagens falando sobre uma tal gincana que a Fox queria fazer.
Muitos dos internautas se interessaram e acabaram participando da competição.
"Foi engraçado porque muitas pessoas acabaram descobrindo
que os agentes faziam parte da organização do evento",
conta Fortes.
Métodos mais
arriscados também são considerados como de guerrilha.
O Greenpeace é um especialista no assunto e alguns de seus membros,
ocasionalmente, são presos durante os atos de divulgação
ou defesa das causas ambientais. Em outro exemplo, recentemente, o Peta
(People for the Ethical Treatment of Animals) invadiu a passarela por
onde desfilava Gisele Bündchen para protestar contra o uso de casacos
de pele de animais. Segundo Fortes, tais tipos de abordagem não
são interessantes para a Espalhe, pois "atitudes fora da
lei não geram simpatia, e não é isso o que querem
os clientes".
O principal objetivo
da guerrilha aplicada ao marketing é divulgar um produto ou serviço
sem chatear o cliente. A agência inglesa Cunning, com quem a Espalhe
tem uma parceria operacional, precisou promover o carro Mini, da BMW,
aos jovens, em 2001. Para isso, levou um modelo do veículo com
vários enfeites para a Gayfest de Londres e colocou quatro homens
vestidos a caráter em volta. Em nenhum momento o produto foi
oferecido às pessoas.
Essa sutileza na
comunicação esteve presente em três ações
que a Espalhe fez recentemente. Numa delas, para divulgar o serviço
Hit da Brasil Telecom, dois grafiteiros percorreram, num furgão,
algumas das principais cidades do sul do País. Em frente a casas
noturnas e nas praias, eles aplicaram seus sprays em diversos objetos,
inclusive numa van. Vários surfistas saíram com suas pranchas
pintadas, a pedido. O detalhe, percebido por todos, é que no
lugar da assinatura havia a palavra Hit, com o endereço do site
do serviço.
O segundo caso envolve
a promoção da inauguração de quatro lojas
do Magazine Luiza na zona leste de São Paulo. Uma equipe de 100
promotores percorreu vários bairros com o fim de convidar o público
para sessões gratuitas de cinema. Todas elas, logicamente, patrocinadas
pela rede varejista.
Já os Postos
Esso divulgaram sua nova rede de lojas de conveniência On the
Run por meio de malabaristas no trânsito. Em lugar de bolas de
tênis, eles equilibravam sanduíches, batatas e refrigerantes.
A Espalhe Marketing
de Guerrilha iniciou suas atividades com dois clientes e quatro funcionários.
Atualmente, já são seis contas e 17 profissionais na equipe.
Segundo seus executivos, a receita da Espalhe dobrou em um ano, o que
nutre a expectativa de que a procura pelos seus serviços continue
crescendo. "Nosso maior objetivo é fortalecer o conceito
de marketing de guerrilha e nos colocarmos como uma referência
neste mercado", conclui Fortes.
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